[11] Conciliação e Co-responsabilidade

11 meses com o Tomás na minha vida.

Foi há 2 dias, mas não consegui escrever antes. Escrever uma vez por mês foi um desafio/ objectivo que propus a mim própria, neste primeiro ano como mãe. Esta foi a primeira vez que não me consegui organizar para o fazer, e a justificação é simples: A conciliação laboral/familiar, ou a falta dela. Hoje escrevo sobre isso: Eu não renuncio!

Eu não renuncio à minha família, a cuidar do meu bebé e a aproveitar cada momento livre com ele. Mas lamentavelmente sou obrigada a renunciar ao trabalho, à carreira e a um crescimento no campo laboral.

Depois de 13 meses sem trabalhar: 3 meses antes do parto, 4 meses de licença de maternidade e 6 meses de licença sem vencimento; dia 15 de Junho voltei ao trabalho. Estou a trabalhar desde casa, o que minimiza o choque, a saudade e a culpa, mas que apresenta outros obstáculos e problemas na conciliação do meu trabalho, com as tarefas domésticas e o cuidado do meu bebé.
A principal barreira é a que eu própria ponho para me concentrar a 100%, porque estou muitas vezes com uma orelha em pé, a tentar saber se está tudo bem, ou se o H. precisa de ajuda com o Tom. (Sou obviamente a minha pior inimiga).

Nestas duas semanas a trabalhar desde casa, dei-me conta de que por mais que defenda uma co-responsabilidade familiar, tenho entranhadas em mim as raízes do patriarcado. Durante o confinamento aprendemos a dividir  de uma forma justa, a 50/50, o cuidado e atenção que damos ao Tom. Mas as tarefas domésticas continuam a estar repartidas de forma desigual, pendendo sempre mais para o meu lado. Pergunto-me como vamos conseguir transmitir ao nosso filho essa necessidade de co-responsabilidade, se não conseguimos dar o exemplo? 

Pertenço a uma geração que cresceu em casas onde as tarefas domésticas nunca foram partilhadas, onde a mulher sempre fez muito mais, onde o homem nunca foi para a cozinha ou se atreveu a limpar a casa de banho. É essencial que transformemos isso, ou os nossos filhos crescerão com padrões familiares retrógrados e obsoletos.

A co-responsabilidade é uma questão cívica e tem que ser legislada. Um exemplo bastante claro, é que continua a não ser comum os homens pedirem licenças sem vencimento para o cuidado dos filhos, é sempre a carreira das mulheres que pára e se atrasa cada vez que nasce um bebé. 

O patriarcado sempre presente nas nossas vidas, continua-nos a atirar areia para os olhos, com o conceito “do marido que ajuda a mulher em casa.”.

Eu cada vez que oiço esta frase até fervo e fico com um nó no estômago. Ajudar?! As mulheres não querem ser ajudadas. Os maridos devem fazer a sua parte, a metade que lhes corresponde.

Li não sei onde que durante o confinamento os homens dedicaram-se mais às tarefas domésticas. Puseram mais vezes a roupa a lavar, limparam a casa e alguns até cozinharam. 

Wow! 24/7 fechados em casa, era melhor que continuassem sentados no sofá, agarrados ao telemóvel ou a jogar playstation!! 

A co-responsabilidade real é muito mais do que isso, inclui uma carga mental, logística doméstica, compras, listas, filhos, deveres da escola, actividades, e principalmente iniciativa, característica que falta à maior parte dos homens, neste campo. 

Penso que talvez esta crise que fez com que as familias ficassem juntas, fechadas em casa, deu visibilidade a questões que existem há muito tempo, mas das quais ninguém fala. E também ajudou a que coisas bastante simples e óbvias , passassem para primeiro plano, como por exemplo, o facto de que as ‘coisas da casa’ não aparecem feitas por milagre, alguém tem que as fazer.

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Antes do Tom nascer, decidimos que só iria para a creche depois de fazer um ano, e organizámo-nos para que tal acontecesse. Eu pediria uma licença sem vencimento e o H. guardaria a sua licença de paternidade para usar quando eu voltasse a trabalhar. Neste momento e dadas as circunstâncias, estou a trabalhar desde casa e sinceramente é um “alívio” para todos, porque cuidar de um bebé e de uma casa sozinho é uma tarefa duríssima e que esgota qualquer pessoa.

Mas trabalhar desde casa não deve ser um privilégio, e sim um direito. O tele-trabalho também tem que ser regulamentado, a conciliação deve ser real, as jornadas laborais têm que ser revistas, compactadas e flexibilizadas.

As mulheres acabam por renunciar, porque ser mãe é penalizado no mercado laboral, porque os horários são incompatíveis, pela forma como nos fazem sentir no nosso local de trabalho, pela falta de diversidade de género em lugares de chefia nas empresas e por muitas outras razões das quais ninguém fala e continuamos a fingir que não vemos.

No meu caso pessoal, o regresso ao trabalho implicou uma mudança de departamento. Não de salário ou de categoria, mas claramente de destaque dentro da empresa. Eu decidi aceitar com a tranquilidade que a maternidade me trouxe, e priorizar o que realmente me importa neste momento. A verdade é que como a conciliação é tão difícil e a co-responsabilidade ainda é algo que estamos a tentar melhorar cá em casa, “dá-me jeito” ter menos responsabilidade na empresa.

Mas no fundo vejo-o como uma “despromoção”, como um “arrumar na prateleira”; como se a mão do patriarcado não me devolvesse o posto de trabalho num departamento que eu abri em Barcelona e geri durante 7 anos e que para dar razão a tudo o que acabei de escrever, no meu lugar foi posto um homem a trabalhar.

Porque depois de se ser mãe, o patriarcado institucionalizou que quem cuida dos filhos somos sempre nós, quem vai ao médico com as crianças e fica em casa se estão doentes somos nós, quem renuncia temos que ser nós.

Há mesmo um longo caminho a percorrer, mas quero acreditar que estamos despertas e consciencializadas para o fazer. A conciliação não é uma questão das mulheres, é uma questão social. Deve ser vista como um direito individual e não familiar, não só quem tem filhos precisa de conciliar a vida laboral com a familiar. Há que lutar por uma mudança nos valores herdados do patriarcado, que são claramente uma ameaça para a sociedade igualitária e justa, onde quero que o meu filho cresça.

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