[9] Um dia de cada vez

9 meses com o Tomás na minha vida. Fecha-se mais um ciclo.

Nove meses dentro e nove meses fora. Chamam-lhe gestação externa ou segunda gestação, e fica assim concluido o período que lhe faltava para ganhar um mínimo de independência.  Neste momento o Tom já gatinha, já fica de pé se apoiado em algum sítio, não fica quieto nem um minuto e está em constante exploração de tudo o que tem ao redor. Ele, todos os dias mais engraçado. Eu, cada vez mais apaixonada.

Agora mesmo é impossível dissociar o crescimento do meu bébé, as mudanças na nossa vida, a pandemia, a cuarentena, a clausura e a preocupação. Está tudo junto na mesma panela que cozinha na minha cabeça a lume brando. Não tenho deixado sair o fumo, e tento manter uma aparente tranquilidade para o bem de todos. Principalmente para a minha própria sanidade mental.

Voltei a fazer yoga todos os dias, a parar para respirar, a controlar a ansiedade. Voltei a beber um copo de vinho, sempre que possível (depois de amamentar), converso com os meus pais todos os dias, sinto os amigos mais perto do que nunca. A distância com que já estava habituada a viver, é muito diferente desta que me separa de todos agora.

Faço longas videochamadas com brindes à mistura, gargalhadas, conversas profundas, preocupações partilhadas, expectativas, especulações, sonhos, desejos, abraços virtuais e uma certeza absoluta: a de que tenho muita sorte pelas pessoas que tenho na minha vida.
Percebi que não preciso de muito mais, mas talvez precise de coisas diferentes. Depois de mês e meio fechada em casa, só tenho saudades de lugares, pessoas e situações. Da familia, dos amigos, do mar… afinal pode ser tudo bastante simples.

Vivemos em pleno centro de Barcelona, numa casa grande e bonita, mas alugada por um dinheiral. Depois de muitos anos é a primeira casa sem terraço nem varanda, com muita luz, mas apenas com uns tímidos raios de sol pela manhã, que tentamos apanhar entre as nuvens que passam lentas pelo céu primaveril do Eixample.

Agora, depois de 40 dias fechada sem sair, volto a repensar tudo outra vez. Não apenas o facto de ter um terraço, isso não é impossível de conseguir. Mas repenso o viver longe da natureza, o viver longe dos meus pais; questiono as escolhas que fiz e questiono tudo o que pensava que queria para o meu filho. Continuar a viver no centro de uma grande cidade, poder ter afinal um custo muito mais alto além do já vergonhoso valor dos alugueres.
São tempos estranhos estes em que vivemos… tento ver de forma positiva o facto de me questionar. Estranho será se tudo isto não nos fizer pensar.

 

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