Sinceramente já nem me lembrava da última vez que tinha ido à Festa do Avante, seguramente antes de ter ido viver para Barcelona, há mais de 15 anos.
Mas para quem não sabe, esta festa fechou os meus verões durante toda a minha adolescência e princípio da idade adulta.
Voltar agora e em família, foi como voltar a casa, voltar àquele lugar onde fomos tão felizes e não nos demos realmente conta. Apesar do Tom ser ainda pequeno, partilhar com ele o espírito do Avante fez-me sentir esperança, fez-me sentir que passar o testemunho é importante, que possibilitar a liberdade de pensamento é fundamental e mostrar ao meu filho que existem formas possíveis para contrabalançar e equilibrar o mundo capitalista onde vivemos, encheu-me de alegria.
Confesso que quando entrei pela porta e comecei a caminhar pelas ruas do Avante, senti uma imensa nostalgia, uma incapacidade de pôr em palavras o que estava a sentir. Parecia tudo igual, mas não estava; a começar por mim.
Na verdade vi muita coisa melhorada, o Avante acompanhou a evolução dos tempos, as infra-estruturas, as casas de banho, a possibilidade de pagamento com cartão, as zonas infantis, e alguns outros detalhes que mostram que ali ninguém está parado no tempo.
E o que já era bom, assim continua; uma mistura saudável de várias tribos a conviver harmoniosamente num único espaço. A ausência de preconceitos e complexos desde o avô ao neto, a liberdade sentida quando se dança como se ninguém nos estivesse a ver. Uma ordem e logísticas organizadas sem regras, um civismo individual sempre a pensar no bem estar da comunidade. As conversas sinceras, as discussões profundas e uma convicção de que se pode mudar o mundo, que é comum a todas aquelas pessoas. E quando de repente alguém começa a cantar, todos cantamos também.
O Avante é uma festa que há que ir e vivê-la para perceber do que se trata. Não é só uma festa de um partido político, é uma festa de pessoas que partilham o mesmo espírito de comunidade, a mesma resiliência e capacidade de resistência. Ninguém vai obrigado, desde quem a montou de forma totalmente gratuita durante o tórrido verão, a quem nela trabalha sem cobrar nada ou mesmo quem pagou bilhete e a visita. Todos vão e estão, de livre e espontânea vontade, impelidos por algo único e cada vez mais escasso: o idealismo e a convicção, a crença sincera de que a resistência já é uma vitória.
Desengane-se quem acha que o comunismo está ultrapassado, anacrónico ou extinto. O comunismo passa de pais para filhos, mas também depende de uma admirável capacidade de organização, mobilização e recrutamento do partido.
Eu não sou comunista, mas não me esqueço de uma frase que ouvi algures quando ainda era criança: Foram os comunistas que nos deram a liberdade. Foram eles que lutaram por muitos dos direitos adquiriros, como o direito à greve, ao voto e à liberdade de expressão.
Eu não sou comunista, porque no fundo não sou de nenhum partido, mas identifico-me com a sua forma de pensar e com muitos dos valores que defendem. Eu não sou comunista, mas reconheço a necessidade da existência de um partido comunista. Eu não sou comunista mas voto à esquerda e se possível, o mais à esquerda possível.
