Voltar a escrever era inevitável. Porque é impossível guardar tudo cá dentro e gerir as minhas emoções, a lista das compras, a roupa do Tom, a mochila da escola, o trabalho, as contas da casa, as dificuldades da vida, os imprevistos, a pressa com que passa o tempo, e como se tudo isto não chegasse, gerir também uma guerra, um genocídio, os monstros que nos governam e continuar a lutar, como se não estivesse completamente exausta.
Não, não sou mãe solteira. E não faço tudo sozinha, divido as tarefas, as angústias, e a carga mental. Mas a divisão é feita daquela forma que nos ensinaram a todas e a todos, um bocadinho mais para mim e um bocadinho menos para ele. E assim vamos, a reclamar de vez em quando, a ajustar para que a balança fique mais equilibrada, mas sempre com ele a ressonar ao meu lado, enquanto eu observo os tímidos raios de luz que entram pela frecha da janela, às 4 da manhã, do alto da minha insónia.
Passou tanto tempo desde que escrevi pela última vez. Como é que é possível? Eu também me pergunto, mas nem procuro respostas. Não vale a pena justificar a vida, eu entendo-me apesar de me custar sempre digerir a acidez do arrependimento.
Não me prometo consistência, e muito menos assertividade cronológica, mas sim coerência com quem sou, com o que penso e com aquilo que defendo. Isso sempre.
Nestes dois anos sem escrever vivi intensamente o que pude e aprendi a sobreviver como pude, sempre dentro do meu privilégio, claro! Sem dramas graves e com os problemas normais de primeiro mundo.
Mas a verdade é que a vida passou, difícil mas sempre bonita, com o Tom a crescer, a aprender e a ensinar-me a ser melhor. Nem sempre é fácil.
Ser melhor, digo!
A sociedade testa-nos, as pessoas à nossa volta não se indignam o suficiente e aceitam dançar a música que toca, como se não houvesse consequências, sem conflito moral e com a naturalidade da ignorância.
E eu, “que me encanta bailar”, recuso-me a entrar para esta pista de dança.

do Eixample Izquierdo, Barcelona.