[Quebrar o silêncio] Para quê?!

Depois do último post recebi várias mensagens a questionar o meu estado anímico e emocional. Depois do último post, ouvi comentários solidários que diziam que os medos são comuns a todas as mães, que é normal sentir estas coisas e quando eu respondi que sim, que sabia disso mas que me dava conta de que ninguém fala do tema… a contra resposta foi: Para quê?! 

Para quê que se vai falar de um tema constrangedor e preocupante? Para quê que vamos dizer ao mundo que temos medos, que temos dúvidas, que não sabemos tudo. Para quê que vamos contar que a maternidade é um pau de dois bicos (muito afiados).  Se o correcto é continuar a passar a imagem de que as mulheres comem e calam, e aguentam com tudo sem nunca reclamar.

As pessoas que carinhosamente se preocuparam pelo meu estado de espírito, questionaram-me uma possível depressão. 

Imagino que quando se tem uma depressão pós-parto, a última coisa que alguém lhe apetece fazer é escrever num blog sobre isso. Se a pessoa está deprimida, nesta sociedade, mais uma vez vai esconder e fingir que aguenta até não poder mais.

As questões sobre as que escrevo são reais. Mas não são reais só para mim, são para muitas mais mulheres.

Na verdade, dentro de toda esta mudança na minha vida, eu sinto-me emocionalmente resolvida. Feliz com a minha escolha, surpreendida com as dificuldades, curiosa com o futuro e apaixonada pelo meu presente.

Mas que não se negue que a maternidade é duríssima, que não finjamos que está tudo bem e normalizado, porque nem sempre as coisas são simples. 
Nasceu um bebé e nasceu também uma preocupação constante com esse pequeno ser e o seu futuro imediato.

Nunca mais voltarei a ser a pessoa que fui um dia, mas obviamente que a vida continua. 

Compreendi que o facto de escrever sobre os ‘incómodos’ da maternidade, faz com que se pense que algo não está bem. Porque o socialmente aceite é que não se diga nada e que acreditemos nas  ‘instamummys’ das redes sociais, que nos enganam com as suas vidinhas perfeitas. 

Escrever sobre os incómodos da maternidade, é escrever sobre a realidade de milhões e milhões de mulheres que calam as suas dores, as preocupações, as recuperações, os medos e a tão forte metamorfose que se dá na nossa vida depois de ter um filho. 

Mas como dizia o Cazuza: O tempo não para! – por isso com ou sem filhos, mais ou menos abaladas, há que continuar a viver intensamente, a sonhar e a aproveitar cada minuto. Desejo muita força a todas as mães solteiras, as todas as mulheres que criam filhos sozinhas, a todas as que tiveram partos difíceis, às que ainda não conseguiram recuperar, às que ainda não aprenderam a lidar com a mudança; desejo muita força também a todas aquelas que acham que já têm tudo controlado, porque ser mãe é o melhor e o pior trabalho de sempre, e um filho cria-se para o mundo e não para nós.

E eu agora, mesmo com o cansaço natural desta nova fase e todas as questões sobre o impacto de tudo isto, estou viva e feliz.

A minha vida tem um novo sentido, de certa maneira estou rejuvenescida, tenho muitos projectos e sonhos, confesso que nem sempre tenho energia mas tenho muita vontade e isso é o mais importante.

6 opiniões sobre “[Quebrar o silêncio] Para quê?!

  1. Olá, sou Mãe de um rapaz de 4 anos e sinto o mesmo. Que é dificil dizer que é dificil. Se tenho um desabafo, o que me dizem é “pois, mas é mesmo assim” ou ” mas tudo vale a pena, não é”. Como se o facto de falarmos sobre o assunto quisesse dizer que não somos felizes nesse papel de Mãe. Porra, é difícil como o caraças, a verdade é essa. Agora que olho para trás, penso que gostava de ter falado mais, de ter mostrado mais as minhas fragilidades. Talvez não me tivesse sentido tão sozinha.
    Já mais recentemente, fui desabafando com a minha Mãe. O primeiro impulso dela foi dizer o habitual. Mas quando eu disse “eu sei disso tudo, mas preciso de falar”, ela mostrou abertura para ouvir. Porque na verdade não precisamos que nos apontem caminhos ou esclareçam dúvidas, às vezes só precisamos de colinho. Como as crianças, aliás.

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  2. O meu filho tem 3 anos e, desde que ele nasceu, que já conheci outras mulheres que foram mães depois de mim. Quando a conversa dos filhos é maternidade surgia pela primeira vez, eu dizia sempre : não sei se te sentirás bem com isso mas eu sou a mãe que fala das dificuldades porque do amor já todas sabemos. O facto é que, senti que muitas estavam a “rebentar” e não falavam com ninguém sobre as dificuldades e medos!

    E não há nada que eu mais deteste ouvir que o célebre: “mas vale sempre tudo a pena!”

    A sério que precisamos de justificar algo normal e natural? Justificar e, convenhamos, desvalorizar!

    Posto isto, acho que a naturalização deste processo que é a maternidade e o nosso papel de mulher /mãe também nos ajudaria a não diabolizar, por vezes, a maternidade. Tens coisas muito boas e muito más e a verdade é que nunca estamos preparadas.

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  3. Podes crer! Continua-se a alimentar o culto da perfeição. Adoramos as aparências…e mostrar aos outros como tudo está maravilhoso. Pffff Recupera-se muito mais rápido de qualquer stress, se o sacarmos para fora, se partilharmos o problema. Mas não… o pessoal prefere guardar o monstro e deixa-lo crescer dentro do armário. Vá-se la entender!

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