Há uma pressão interna que vem principalmente de fora, para nos sentirmos realizadas aos 40. Talvez mais do que isso, acho que a palavra adequada poderia até ser: resolvidas. A sociedade ensina que aos 40 deveríamos ter as nossas inquietudes pessoais resolvidas. Have our shit together!
Pois, hello pessoas (como se diz nos dias que correm), hoje celebro 43 e para me sentir resolvida tenho ainda um belo caminho pela frente. Perguntas sem resposta sobrevoam-me a cabeça, qual cagarro gritante numa noite de verão açoriana.
Os primeiros 6 meses sem trabalhar foram uma montanha russa de tanta coisa, que nem sei por onde começar. Depois do confronto com a realidade do mundo corporativo patriarcal, a ansiedade não passa de um dia para o outro. Ao contrário!
Depois da tempestade não vem logo a bonança, porque é nos tempos de calmaria que a real ansiedade se revela. É no silencio e na ausência de uma rotina activa, que o cérebro se torna hiperactivo. E há que lidar com isto todos os dias, com muito pensamento positivo e com uma enorme capacidade de aceitação.
Aceitar os dias em que passei demasiado tempo no sofá, aceitar que procrastinar também faz parte do processo. Aceitar que não faz mal começar do zero. E principalmente, aceitar que não se pode mudar o passado e o caminho é para a frente.
E sei que não estou sozinha, que há tanta gente que aos 40 continua perdida em busca do seu caminho. Que ainda não encontrou o seu propósito e talvez nunca o venha a encontrar. Que não tem vocação, nem aptidão, nem jeito para nada. Ou que têm jeito para tanta coisa, que se perdem na procura. Que não buscam uma carreira ou que não ambicionam um reconhecimento. Há pessoas para quem este tipo de coisas, não é uma prioridade, e como se diz na minha terra emprestada: no pasa nada!
Mas para o “resto do mundo”, sim que passa. Quando não se tem essas características, não se é admirado, dado como exemplo, olhado como um igual. Quando simplesmente não se quer competir com o sucesso do vizinho, é-se menos, aos olhos dos outros. E muitas vezes, aos nossos próprios olhos, que é tão pior.
Porquê que temos que ter uma casa e um carro e casar e ter filhos, e ter cromos na caderneta e carimbos no passaporte, e acumular coisas e mais coisas? Porque é isto que nos metem na cabeça desde que somos pequenas, que temos que ser “alguém na vida”. Como se ao sermos nós mesmas não valesse. Tradicionalmente ser alguém na vida é ser formatado, semelhante e dentro do padrão, ainda que esse alguém não seja a pessoa que realmente somos. Competir e comparar, para ser e parecer melhor do que o outro. Para mim não tem sentido!
Os primeiros seis meses sem trabalhar passaram rápido, mas esses mesmos primeiros seis meses, foram aqueles em que vivi a minha vida ao meu ritmo, e posso garantir que esses passaram lentamente, procrastinei o que precisei e vivi como quis. E não me arrependo de nada. Faz parte!
Aproveitei para curtir muito tempo o meu filho, viajei quando me apeteceu, desconectei da rotina, voltei a estudar e procurei o que realmente gosto de fazer a nível profissional.
O problema é centrarmos a vida no trabalho e não em si mesma. O que realmente importa destes últimos seis meses, não é o facto de estar desempregada, mas sim o facto de ter tido tempo para viver a minha vida à minha maneira. Demorei a entender isto.
Por isso, entro hoje nos 43 com a certeza de que neste próximo ano, me vou dedicar à minha vida e não a ser alguém que no fundo não quero ser.
Traçar novos caminhos e sair à descoberta não é simples, e mesmo que se pareça perdido, quem tem a coragem e audacia de o fazer, é exatamente porque no fundo já se encontrou.

Maravilhoso texto Dani. Como sempre! ❤️
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Faço as tuas palavras as minhas , se te compreendo…eu aos 50 quase ainda não me encontrei …não tive filhos , não sei no que sou boa …mas vivo a vida …mas a sociedade exige , a familia exige …sorte é que tenho marido q está sempre comigo e diz q a vida não tem de ser como as outras pessoas querem que seja …beijocas força aí 😘
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Que força tens! Estás no caminho certo. É preciso ter muita coragem para irmos contra tudo e todos nessa nossa busca. Maravilhosamente escrito! 👏
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