As Festas do meu Bairro

Ontem acabaram as festas do meu bairro, as festas do Eixample Esquerdo (Esquerra de l’Eixample); um dos bairros residenciais de Barcelona, sem nada especialmente turístico para ver, sem ser as ruas tradicionais da quadrícula, o ambiente boémio do quotidiano barcelonês e a energia muito própria desta cidade.

Este é o bairro que alberga a zona gay da cidade (Gayxample), é o bairro que a norte está nos limites da zona alta, acima da Diagonal, onde estão as empresas mais tradicionais e onde geralmente se trabalha de gravata e se fala essencialmente catalão.

A sul faz fronteira com os Bairros do Raval e de Sant Antoni, já dentro da cidade velha e da zona noturna dos vícios pecaminosos aqui do burgo.

Enfim, o Eixample Esquerdo é grande e tem muitas faces e facetas, e é aí que reside o seu encanto!

Tem uma associação de vizinhos ativa e cheia de iniciativa; na minha zona há uma grande horta comunitária, um centro cívico e cultural cheio de cursos e opções criativas e além disso tudo e muito mais; tem uma consciência social enorme.

Depois de praticamente 5 anos a viver neste bairro, sabemos que quase todos os meses há um dia em que se fecha uma rua e fazem-se atividades. Juntam-se os vizinhos, conhece-se a comunidade, discute-se temas sociais, políticos, e tenta-se encontrar soluções para os problemas que existem.

A convivência é mais fácil para as pessoas que têm filhos, porque partilham as escolas, conhecem-se dos colégios ou do parque infantil do bairro.

Não é o nosso caso.

Mas mesmo assim, as pessoas estão abertas a conhecer-nos, a esclarecer as nossas questões, e a receber-nos na comunidade de braços abertos.

Aqui vivem essencialmente famílias jovens com crianças, e casais catalães mais velhos. Mas como em toda a cidade, há gente de todo o mundo e uma mistura variada que torna a sociedade mais saudável.

Este ano um dos slogans das festas foi: “Espais lliures de sexisme” – Espaços livres de Sexismo!

Chamou-me particularmente a atenção, que tivessem dedicado uma noite das festas às mulheres, onde foram elas as que subiram ao palco para cantar e tocar. Foi a noite em que um extraordinário grupo de percussão feminino, animou a festa e mostrou que o género não faz a arte e a tradição já não é o que era.

Descobri que na associação de vizinhos do Eixample Esquerdo, há um projeto que pretende acabar com o isolamento das mulheres, particularmente das que são mais vulneráveis; como as imigrantes ou as que têm alguma incapacidade; e assim poder prevenir situações extremas, de exclusão ou violência.

Também tenho que destacar que estava presente a Associação de vendedores ambulantes de Barcelona, da qual nunca se ouve falar e que representa uma talhada importante da sociedade. São todos os comerciantes que sem um espaço físico aberto, vendem pelas ruas, com ou sem papeis e que muitas vezes ainda que queiram estar legalizados, a lei que fecha quase sempre os olhos à sua atividade, também lhes fecha a porta.

Face à situação atual, e com um discurso sério, consciente e anti sexista; a comunidade do Eixample Esquerdo, não defendeu a sua Generalitat nem defendeu o Governo Central em Madrid. Defendeu sim, uma postura pacífica, em prol do diálogo e da igualdade.

Senti-me integrada, contente por pertencer a esta comunidade, por viver neste bairro e poder participar numas festas com tanto de familiar como de multicultural.

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