Tabus em 2019… 🙄

Isto dos tabus é algo que me incomoda desde sempre, nunca consegui perceber porque é que há coisas sobre as quais não se fala. Toda a gente sabe, mas ninguém diz alto. Toda a gente sente e sofre, mas ninguém partilha.

O que nos faz como espécie que vive em sociedade, retrair-nos de tal forma, que permitimos que temas específicos nos consumam por dentro e nos amarguem a vida, sem contar nada a ninguém. Será a pressão e obsessão por sermos perfeitos, mais importante do que a nossa tranquilidade interior?

Recordo-me de vários exemplos neste momento, e todos me fazem sentir um aperto no peito: como o facto de se ser seropositivo, de se ser circuncisado, a masturbação feminina, a amamentação em público, as diversas preferências sexuais, a violência doméstica ou um dos maiores tabus de sempre e que em algum momento nos tocará a todos, mas que ninguém fala e por isso é tão difícil lidar com o tema: a morte.

Lembro-me que em Portugal, quando alguém morria de cancro, diziam no telejornal que morreu de doença prolongada. Ninguém dizia a palavra cancro.

Todos sabemos que é uma doença de merda, e “destrói” não só o doente, mas toda a gente que o rodeia. Todos temos um caso na família, todos temos alguém que perdemos, ou alguem que vimos sofrer. E é verdadeiramente horrível.

Porque escrevo este post agora? Porque tenho neste momento um amigo que passa pelo seu segundo cancro; e ele, com toda a naturalidade do mundo resolveu mais uma vez contar tudo nas redes sociais. Alertar-nos para a importância de viver cada dia intensamente, dar a conhecer uma realidade que nos pode bater à porta e que vivemos a fingir que só acontece aos outros.

E é a força de pessoas como ele, que me faz acreditar, que independentemente de estarmos mais próximos ou mais distantes, devemos sempre dizer aos que amamos que os amamos, e devemos sempre aproveitar cada momento e lutar por aquilo que achamos correto. Isto das redes sociais, não pode só servir para mostrarmos aos outros como estamos bem e felizes, ou todas as coisas fixes que fazemos, como viajamos pelo mundo ou como os nossos projetos florescem. As redes sociais também devem funcionar como um alerta para a realidade, e ser uma plataforma de solidariedade e informação.

Força aí Gus, estamos juntos!

Este post vai ser longo! Preparem-se, que as minha hormonas estão on fire! 🔥

*Roedores. Cuerpo de embarazada sin embrión. – Paula Bonet – 2018

À raiz desta tão verdadeira frase… de que há coisas que não acontecem só aos outros… escrevo hoje sobre dois temas tabus que vão juntos na minha vida, que à consequência de um, apareceu o outro e quero contar como de uma situação tão triste cheguei a outra tão positiva e benéfica para mim.

Em 2016 engravidei e no final do primeiro trimestre, os resultados dos exames deram positivo para Síndrome de Down. Depois de um milésimo-de-segundo de hesitação e profundo choque, resolvemos interromper a gravidez. Despertámos com as sábias palavras da minha médica, que dizia: Se a vida já é tão difícil para uma pessoa normal, imagina como será para uma pessoa com deficiência.

E desta forma objetiva e consciente submeti-me a uma ILE (interrupción legal del embarazo).

Não vou argumentar sobre estar a favor ou contra, respeito que cada um tenha direito à sua opinião, ainda que algumas não compreenda nem me entrem na cabeça. Respeito e admiro as pessoas que decidem ir para a frente em situações como a que eu vivi; decidir ter um filho com deficiência é uma decisão muito pessoal, talvez até altruísta e extraordinária. Eu não fui capaz.

Estive muitos meses sem conseguir falar do tema com ninguém, estive muitos meses a fingir que a vida continuava e que mesmo sem superar a situação, era mais simples pôr uma pedra em cima do assunto. Mas como sempre, a vida dá-nos voltas e depois de um assustador ataque de pânico a meio de uma viagem ao Vietname e vários de ansiedade nos seguintes meses, toda a frustração e sofrimento escondidos, começaram a sair pelo meu corpo. Para quem não sabe, o psicológico e o físico andam sempre de mãos dadas.

Aos poucos comecei a falar, para tentar perceber o que me passava, e qual foi a minha surpresa, quando descobri que algumas amigas já tinham passado por situações do género. Que em algum momento também elas tinham abortado, por diferentes razões, mas que o tinham feito. Que apesar de sermos amigas, nunca se tinha falado do tema.

Mas não se conta a ninguém que se fez um aborto. Não se conta que se decidiu não seguir com uma gravidez, não se conta que tivemos azar e a coisa não correu bem, ou que simplesmente fomos imprudentes, que eramos jovens e que não estávamos preparados para ser pais. O aborto é ainda hoje um tabu enorme, seja em que circunstâncias for, entre mulheres e homens, entre amigos e familiares.

Enfim… mesmo depois de começar a desabafar a minha história, e perceber que não me aconteceu só a mim, mas que também há que ter consciência de que não acontece só aos outros… aceitei que não ia conseguir resolver isto sozinha. Por iniciativa própria, procurei ajuda e encontrei na psicoterapia uma porta aberta a todo um EU desconhecido.

Depois de um ano de terapia (na qual ainda continuo, ainda que com menos frequência) posso dizer que me ajudou imenso a aceitar as minhas limitações, e a aceitar também as dos outros. A compreender que o que não tem remédio, remediado está; e a superar aquela gravidez que não correu bem. Compreender que apesar de ser provavelmente o episódio mais triste e duro da minha vida, até à data, já passou e há mesmo que seguir em frente. Que não fui a primeira mulher a abortar, nem a ter um positivo para Síndrome de Down; e que obviamente não serei a última. Quando nos passa algo muito mau, é normal que nos vamos a baixo, que nos custe levantar; mas aprender a relativizar é essencial, aprender a não nos centrarmos só em nós, a perceber que há sempre algo muito pior, que temos a sorte de não nos ter passado. E mais importante que tudo, é essencial ser positivo e dar valor a todas as coisas boas que temos.

A terapia, entre outras coisas, ajuda-me a relacionar-me melhor comigo própria e com os outros, devolveu-me uma tranquilidade que eu não sabia que me faltava, ajuda-me a descomplicar situações e a simplificar as minhas emoções. E neste momento, posso dizer que foi essencial no processo de aceitar o que me aconteceu e ajudou-me a ter coragem para voltar a engravidar.

Infelizmente, a terapia também faz parte do grupo dos temas tabu. Vá-se lá saber porquê, mas quando dizemos que vamos ao psicólogo, o pessoal olha para nós como se fossemos maluquinhos.

Entretanto, novamente a conversar com amigos, descobri que alguns com quem convivo normalmente, mas que nunca se pronunciaram sobre o tema, também fazem terapia há vários anos. Que muitos outros já o fizeram em algum momento e que tenho também o grupo dos que gostavam de experimentar, mas ainda não tiveram “coragem”. E eu nem fazia ideia de nada disto. Porque nunca falamos sobre isto??? Se a saúde mental é tão importante como a física!

Eu conto a minha experiência pessoal e escrevo apenas a minha opinião, mas no fundo acredito que todos, em algum momento da vida, precisamos de pedir ajuda. Acredito que nem tudo conseguimos resolver sozinhos, que há situações para as quais ninguém está preparado, que há dores e sofrimentos que não sabemos gerir e que antes de que nos consumamos, e acabemos por destruir a pessoa que somos e aqueles que estão à nossa volta, devemos procurar ajuda.

Vale tão a pena tentar ser feliz, sem complexos, atrofios e principalmente sem tabus.

9 opiniões sobre “Tabus em 2019… 🙄

  1. Daniela se já te amava enquanto sobrinhona e pelas experiências de vida que vou conhecendo da tua parte este post de hoje fez me sentir o quanto tu és uma mulher Especial!Solidario com tudo o que escreveste compartilho a tua abertura é frontalidade num mundo cheio de imensos “tabus “que devemos combater sempre!
    A minha FORÇA total ao Gus!👍🏿👍🏿

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  2. Força Gus, amigo dela! Muita força!

    E para ti… Amei ler isto tudo… Algumas partes não foram fáceis, é um texto bomba. Lamento que tenhas passado por aquilo, não sei o que faria nessa situação mas sei que sou incapaz de julgar a tua decisão. Só sabe quem passa por isso, de certeza. Mas deve ser extremamente assustador ter que tomar uma decisão dessas e viver com ela, seja para que lado for. De arrepiar. E o facto de tantas mulheres passarem por abortos (eu sei) e não falarem sobre isso, nem mesmo com as amigas… inacreditável.

    Eles aqui não fazem o despiste do Síndrome de Down, eu teria tido apenas uma ecografia às 18 semanas se não tivesse ido pelo privado fazer a das 13. E na realidade nunca ninguém me falou nisso, não obtive respostas objectivas. Eles tentam evitar este tipo de casos à força toda. Espero que o meu filho nasça saudável, e que seja feliz.

    Quanto à terapia, já lá estive, e no meu caso não foi uma boa experiência. Há que encontrar a pessoa certa com quem falar, penso eu. Ainda bem que contigo correu bem.

    Realmente somos todos humanos e todos imperfeitos e as conversas dão quase sempre para o mesmo, fingirmos que está tudo bem. Especialmente nos últimos anos, nas redes sociais, olho para aquilo é já pensei nisto tantas mas tantas vezes… Parece um desfile de gente feliz. Como se não estivéssemos todos a lidar com as nossas batalhas, como se não tivéssemos todos dias maus e vergonhas, dificuldades. Espero que isso mude. Falta honestidade e simplicidade em muitas cabeças.

    Boa continuação e 🙌 do meu bebé para o teu! 👍🏻😊💙

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  3. Há pois é, não é fácil …esse sofrimento sei bem o que é eu tive durante 10 anos consecutivos… anos mais difíceis da minha vida …mas passou, a vida continua e a vida tem outra coisas boas sem ser a vida que todos querem que tenhamos , eu foi tudo diferente casar casei ao fim de 23 anos juntos , ter filhos abortei e fiz tratamentos 10 anos , trabalhar não trabalho por opção …e sou feliz !! Beijocas prima felicidades

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  4. Antes de ter o Miguel abortei duas vezes, não entendia o porquê pois tinha engravidado muito facilmente da Margarida. Mas eu acredito que não somos nós quem escolhe os filhos eles é que nos escolhem e por isso acho que o Miguel estava á espera da sua vez para chegar até nós 🙂
    Quanto ao cancro vivo sempre com esse medo pois o meu pai, tia, avós… e por ai fora… morreram dessa doença. Mas um dia de cada vez. e sim ainda é muito tabú. beijinhos para ti e muita força na gravidez, ser mãe é muito bom, mas nem tudo é um mar de rosas e isso (na minha opinião) também é outro tabú, o falar abertamente das coisas menos boas da maternidade. Força para o GUS

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  5. Antes de engravidar do Miguel abortei duas vezes. Não entendia o porquê pois engravidei muito facilmente da Margarida. Mas acredito que não somos nós quem escolhe os nossos filhos são eles que nos escolhem, e o Miguel estava á espera da sua vez para chegar até nós 🙂 não foi fácil pois tive sempre de provocar os dois abortos e continuar a vida como se nada fosse. tivemos mesmo a desistir mas felizmente á um ano veio o Miguel saudável 🙂 agora tenho dois filhos lindos e que são a minha alegria!
    Desejo-te muita sorte, saúde e paciência na gravidez e como mãe. Digo paciência porque embora ADORE ser mãe nem tudo é um mar de rosas e isso (na minha opinião) também é um tabú… não se pode dizer que existem coisas dificeis e que por vezes desesperamos e pomos em causa se estamos a ser boas mães e se fizemos tudo bem. mas mais uma vez é a minha opinião.
    Quanto ao cancro eu acho que ainda é tabú… e para mim é uma doença que me mete muito medo pois o meu pai, avós, tia… morreram de cancro. mas um dia de cada vez. Beijinhos

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