•Portugal em chamas•

Este fim-de-semana foi bastante horrível. Há já muitos anos que o mundo anda horrível, em muitos sentidos, mas quando a tragédia acontece no “nosso quintal”, doí-nos de outra forma. Desta vez nem foi bem no quintal, na verdade foi dentro de casa, na vida; são famílias inteiras devastadas pelo drama. 

Não é possível escrever de outra forma, porque este incêndio arrasou não só as árvores, as casas, e tudo o que apanhou pela frente, mas foram principalmente as vidas humanas que acabaram de um momento para o outro, e foram muitas. 

Não tenho uma boa relação com a morte, lamentavelmente já me deixou sem pessoas muito queridas. Lembro-me que a primeira vez que percebi o conceito de morte, de desaparecimento para todo o sempre, foi aos 12 anos, quando o meu avô Afonso faleceu. 

Eu era miúda e tenho guardada a imagem do meu pai deitado na cama, no lusco-fusco, com um braço em cima da cara, em silêncio. No momento não compreendi a dimensão de tal fatalidade, mas senti uma tristeza estranha, desconhecida para mim até àquele momento. 

Na adolescência perdi dois amigos, com exatamente um mês de diferença, mortes inesperadas e desconcertantes. Miúdos que cresceram comigo, que tinham uma vida cheia de possibilidades e que inesperadamente um dia, já não estavam aqui. 

E em 2010 perdi o meu companheiro de trabalho, o meu amigo de todos os dias, confidente, camarada, aliado e comparsa. Mortes que nos marcam para sempre, ainda que nunca falemos delas. 

Entretanto outros vários desaparecimentos me golpearam fortemente por dentro; a minha prima Francisca, o meu primo Paulo, o meu tio Zé, as minhas queridas avós…. enfim.. 

Perder os que amamos é como se nos tirassem a sabedoria, a razão; tudo deixa de fazer sentido e de repente não sabemos absolutamente nada, não sabemos como nos comportar, o que sentir. 

Lamento sinceramente a perda de todas estas pessoas, lamento todas estas catastróficas mortes. 

Neste momento não me apetece escrever sobre culpados, razões e soluções. Este é um momento de choque, de tristeza e condolência. É momento para sermos solidários e carinhosos com aqueles que perderam alguém. 

Escrevo este post, porque se passou “no meu quintal”, porque é Portugal que chora e sofre as mortes dos seus, porque ontem ao ver as notícias caiam-me lágrimas desoladas por aquelas imagens dantescas. 

Mas na verdade, todos os dias morre gente em circunstâncias terríveis, todos os dias continuam a matar e a morrer inocentes em todas as partes do mundo; e ainda que as noticias nos informem do terror que se vive na Síria, no Mediterrâneo, em África, na Venezuela e em muitas outras partes; criámos uma carapaça que nos parece deixar imune à tristeza e à ruina. 

Mas não deixa; aqui ninguém é imune à morte, e temos que perceber que enquanto estamos vivos devemos aproveitar ao máximo e viver intensamente cada dia. Devemos verbalizar o nosso amor pelos que nos são queridos, devemos ser solidários com o próximo, compreensivos, tolerantes e abertos à diferença. Devemos ser justos e cuidadosos com os animais e com a natureza. 

Devemos ser felizes! Nascemos para isso, e ninguém sabe quando vai morrer. 

Uma Lisboeta no Porto

O Porto é uma daquelas cidades com os 3Bs: bom, bonito e barato!
A cidade que um dia foi taciturna, manhosa, cheia de carôchos, e com um ambiente inseguro e intimidante, está agora completamente diferente. 

Este último foi um fim de semana em família, eu e a mana apanhámos o avião desde Barcelona e os nossos pais, o comboio desde Lisboa; juntos fomos celebrar ao Porto o aniversario da nossa mãe. 

Esta foi a 5a vez que fui ao Porto e foi a primeira em que apanhei realmente bom tempo, 2 dias com um quente e luminoso sol, que fez com que a cidade ficasse ainda mais bonita.

O Porto nos últimos anos rejuvenesceu, com edifícios reabilitados, ruas arranjadas, fachadas restauradas; passeios e praças cheios de esplanadas e turistas por todos os lados. Uma cidade com uma cara nova, mas que assim como Lisboa mantém aquele encanto ‘underground’, meio velho meio novo, arranjadinho mas descuidado, bonito e feio ao mesmo tempo. Um “je ne sais quoi” que não se explica, só vendo com os nossos próprios olhos. 

Tal como já tinha constatado em Lisboa, parece mesmo que o mundo descobriu o segredo mais bem guardado da Europa: Portugal – um país cheio de tanta coisa e com um potencial incalculável. 

O Porto é ligeiramente mais barato que Lisboa, as pessoas são efetivamente mais simpáticas, mais simples, e talvez até mais divertidas. Por muito que me custe admitir, acho que nós Lisboetas somos mais sérios e sisudos. Enfim, mas como diz uma amiga: nós temos outros encantos!

Nestes 2 dias fizemos algumas das muitas coisas que o Porto tem para oferecer. Alugámos um apartamento airbnb entre o Mercado do Bulhão e a Estação de S.Bento, melhor localizado impossível! Comprámos um Tour de Bus turístico, algo que foi a segunda vez que fiz na vida; (a primeira foi em Sevilha também com os meus pais); mas percebi que quando se tem pouco tempo e quando as pernas já não aguentam maratonas, os Bus Turísticos são a melhor opção. 

O Tour era para 2 dias e incluía: 2 rotas por toda a cidade do Porto, V.N.Gaia e Matosinhos, podendo sair e entrar quando quiséssemos; um passeio de 1 hora em barco no Rio Douro passando pelas 6 pontes e uma visita as Caves de Vinho do Porto Calem. E com os tickets tinhamos também acesso aos transportes públicos. Tudo por 24€! Vimos a cidade de ponta a ponta e ficámos com uma ideia do que queremos visitar numa próxima vez, com mais tempo e atenção.

Para comer recomendo os restaurantes em frente à Lota de Matosinhos, peixe grelhado verdadeiramente delicioso.

A melhor francesinha dizem que é feita no Café Santiago, em frente ao Coliseu. Fomos provar, e depois de 20 minutos de fila à porta, posso dizer que realmente é bem boa, assim como tudo o que comemos lá e com um serviço 5 estrelas. 

Para o pequeno almoço ou uma merenda a meio da tarde, deve-se ir a qualquer pastelaria tradicional, onde se pode encontrar todas as iguarias portuguesas, que nos ajudaram a matar as saudades.

A zona mais turística, como por exemplo a Ribeira, lamentavelmente é como em todas as outras cidades; os preços sobem, a simpatia diminui e o falta de profissionalismo muitas vezes aumenta. Mas depois contemplamos aquela vista maravilhosa para o Douro e rendemo-nos totalmente à Invicta.

Numa das vezes que fui ao Porto lembro-me que comi no Café Majestic, que é deveras majestoso, e deslumbrei-me com a impressionante arquitetura da Livraria Lello, tudo isto sem pagar mais do que o que comprei ou consumi. Agora já não é possível, ambos os locais têm porteiro e cobram entrada. Dá-me muita pena que a massificação do turismo faça destas coisas. De qualquer forma, para quem não conhece e visita o Porto por primeira vez, considero locais obrigatórios. 

Assim como as caves de Vinho do Porto, que numa breve, mas muito interessante visita guiada de 40 minutos, ajuda-nos a ficar com uma ideia de como funciona o processo e aprendemos um pouco mais sobre o vinho.

Termina com uma degustação de 2 vinhos diferentes, num ambiente agradável, descontraído e multicultural.

Dois dias passaram muito rápido, mas além destas atividades tivemos ainda tempo para caminhar pela animada Rua das Flores, por Santa Catarina, zona dos Clérigos, Ribeira e pelo Cais de Gaia.

No entanto ficou muito por ver, a começar por Serralves, que é um dos locais de Portugal que tanta vontade tenho de visitar, mas lamentavelmente ainda não foi desta vez. 

Sendo assim, fica prometida uma próxima viagem ao Porto, uma cidade tão linda e encantadora, diferente de Lisboa mas igualmente apaixonante.

Emigrantes no País dos Lagos

No verão de ’97 fiz uma viagem de furgoneta até à Suiça. Foi uma viagem memorável e a minha primeira viagem longa, pela estrada fora, com amigos. Espanha e França já não eram desconhecidas para mim, mas a Suiça foi a primeira vez e confesso que nao adorei. Pareceu-me demasiado organizado, limpo e extremamente caro. 

Mas com 17 anos sabemos muito pouco da vida e este fim de semana tive a oportunidade de rever este lindíssimo país, 19 anos depois, com outros olhos e muitas viagens na bagagem. 

É um país com uma beleza natural impressionante; grandes montanhas, lagos intermináveis e águas cristalinas. Os Suíços, apesar de geograficamente estarem no centro da Europa, são como um povo nórdico, reservado e pouco expontâneo, mas simpático e de trato fácil.

Mantenho a minha opinião sobre ser um país caríssimo, onde tudo se paga – e muito; e onde às vezes parece que o facto de se poder ganhar muito dinheiro, inverte as prioridades e corrompe os valores das pessoas. 

A comunidade portuguesa é gigante e apesar de alguns me terem dito que não, penso que a maioria dos emigrantes na Suiça são completamente diferentes dos portugueses que emigraram para Barcelona. 

Pareceu-me que os muitos francos que ganham e que lhes permite fazer mil e uma coisas, os enchem de ilusões e os fazem perder a noção da realidade, ganhando a entristecedora petulância de se acharem superiores e mais civilizados que outros emigrantes. Ou há também o outro lado; o do “tuga” que se fecha no seu gueto, que vai à associação jogar cartas e beber cervejas, e que a única coisa que faz é juntar dinheiro para o Audi e para a casa na terra.

Realidades tão diferentes, mas ambas incompreensíveis aos meus olhos.

Um país onde, por exemplo, é obrigatório ter seguro de saúde e esta se paga a peso de ouro, onde os vizinhos avisam a policia ao mínimo ruído, onde se multam as pessoas se não usam os sacos de lixo estipulados, onde se controla rigorosamente tudo e onde principalmente as relações humanas são frias e os contactos programados; é na minha opinião, um país no mínimo estranho.  

De qualquer forma, e apesar de ter visto uma realidade com a qual não me identifico, gostei muito desta viagem e penso que não esperarei novamente 19 anos para voltar à Suiça. Revi pessoas queridas que não via há vários anos e fui recebida por uma prima com quem tenho cada vez mais contacto e que felizmente não se enquadra em nenhuma das categorias de emigrante que referi anteriormente. Uma pessoa cheia de vida, cheia de amor e com uma energia luminosa e contagiante, que nos recebeu de braços abertos e nos mostrou como se pode viver num país tão frio, sem se deixar corromper pelos muitos dias chuvosos e sim manter um coração generoso e uma atitude sempre positiva. 

Obrigada Z+Y!! 

Nota: Felizmente há sempre excepções, como em tudo na vida! Os exemplos que dou dos emigrantes na Suiça fazem parte de uma visão geral, sem nenhuma intenção de generalizar. 😉

25 de Abril SEMPRE!!

Numa visita relâmpago de aproximadamente 48h fui a Lisboa e voltei, cheia de saudades e muitas ganas de estar com os meus. Nem matei todas as saudades, nem consegui estar com todos, mas aqueci um bocadinho o coração e senti aquela energia vibrante da aproximação do 25 de Abril. 

Hoje é o dia, aquele que todos os anos me emociona e me enche a alma de esperança. 

Lisboa estava ao rubro, cheia de gente, muitos turistas, muita vida, muito tudo. Fim-de-semana prolongado, mas a cidade a barrotes; manifestações nas ruas, exposições, projeções e eventos sobre o nosso dia: – Este, no qual há 42 anos, nos tornámos livres da ditadura, numa revolução de pacíficos cravos vermelhos, cheia de valores bem-intencionados. 

Acredito que o caminho é sempre para a frente, mas que devemos aprender do passado sem nunca esquecer de onde viemos e o que nos trouxe até aqui. 

Diz-se que o povo português é nostálgico por natureza, entristecido pelo fado dos que viram os seus partirem além-mar, há muitos séculos atrás. 

É um bocadinho verdade e por isso não posso deixar de comentar esta nova moda que há um par de anos invadiu Portugal e que de alguma forma, nos remete para esse passado muito agreste, mas cheio de poesia e beleza. 

Os produtos tradicionais portugueses invadiram as montras, supermercados e também as nossas vidas. Abriram-se lojas só de produtos antigos, objetos originais, e reedições de antiguidades, que faziam parte da infância dos nossos pais e do quotidiano dos nossos avós. 

Produtos que estavam esquecidos, que tinham sido ultrapassados pela modernidade das grandes marcas, e que a publicidade e a lembrança tinham deixado para trás. 

A constante transformação das sociedades e das camadas mais jovens, faz com que se reinventem conceitos que um dia se consideraram desatualizados, mas que aos poucos se percebe que também têm um espaço nos dias que correm. 

O 25 de Abril é um bocadinho assim, foi há 42 anos e muitos de nós não eramos nascidos, muitos dos que o fizeram já não estão entre nós; mas nunca passa de moda e terá sempre um lugar de destaque nas nossas vidas. 
Ainda que alguns não lhe tenham dado a relevância merecida; ainda que em algum momento a imaturidade, o capitalismo ou o ressentimento, tenham impedido que se percebesse o verdadeiro papel deste dia; os valores que hoje celebramos, são os pilares da sociedade portuguesa. 
Que nunca esqueçamos de onde viemos e para onde queremos ir, e que levemos sempre connosco os valores antigos que sustêm a atualidade. Que nunca nos falte liberdade para decidir o nosso futuro, em Portugal e em todo o mundo. 
25 de Abril Sempre!!