A mochila ❤️

Depois de meses de espera, pesquisa e organização; a última parte dos preparativos de uma viagem é fazer a mala.
Preparar a mochila dá-me sempre que pensar, porque nunca quero levar muita coisa, mas seria tão mais fácil se pudesse levar a casa às costas.
Todos os anos acabo por perceber que é possível reduzir ainda mais o conteúdo da minha mochila,
porque realmente quanto menos levar, melhor.

A mochila é algo muito importante, vai andar nas nossas costas durante muitas horas seguidas e há que desenvolver uma relação cómoda com ela. Deve ser transpirável, com os apoios certos para a zona lombar e não ser demasiado grande.

Viajei durante muitos anos com uma mochila de 60L, mas este ano passei para uma de 50L, porque quero carregar o mínimo peso possível e aplicar a regra de que menos é mais, que é 100% verdadeira.

Outra coisa a ter em conta, é que a mochila de preferência tenha duas divisões e feche com zip em ambas; para facilitar o acesso, permitir pôr um cadeado e despachar no porão do avião. A maior parte das mochilas fecha na parte de cima com um cordão, o que não as torna tão seguras.

Quando já encontrámos a mochila que se adapta perfeitamente às nossas necessidades, há que pensar no conteúdo. Eu recomendo comprar aquelas bolsas individuais para arrumar a roupa, há na Decathlon e simplifica-nos a vida quando queremos encontrar algo que está perdido no meio de mil coisas dentro da mochila. Com as bolsas, fica tudo separadinho e organizado.

Uma vez estudado o clima do nosso destino (atenção porque num mesmo país pode variar de norte para sul), devemos escolher a roupa de acordo com o tempo que vamos encontrar e se possível, escolher peças que combinem entre si, para desta forma evitar ter “aquela blusa que só se pode vestir com os outros calções”. Todas as peças devem funcionar umas com as outras, e a comodidade, numa viagem, é muito mais importante do que a elegância.

Por isso, agora faço a mochila para três semanas na Ásia:

Roupa:

– 2 calções (um de ganga e um de tecido)

– 3 blusas de alças

– 2 t-shirts de manga curta

– Roupa interior – 7 cuecas,  2 soutiens e 2 meias

– 2 ou 3 bikinis – Imprescindíveis! Penso estar bastante tempo de molho no Mar da China!

– 1 leggins – Dão sempre jeito, são cómodos para dormir, para algum trekking pelas montanhas ou alguma noite mais fria.

– 1 casaco de fato de treino (ou impermeável caso chova) – Juntamente com os leggings, servem para o frio e também para viagens longas (às vezes o ar condicionado no bus ou no comboio é mais frio que o polo norte).

– 1 saia/ vestido comprido – perfeitos para entrar nos templos / sugestão para os homens, umas calças Thai, finas, leves e cómodas.

– 1 lenço grande, que serve para pôr no pescoço se faz frio e também para estender na areia da praia.

-1 vestidinho curto – não vale a pena levar mais, porque na Ásia acaba-se sempre por comprar alguma coisa.

– Chapéu, óculos de Sol e 1 fita para o cabelo

– Sandálias Birkenstock, uns chinelos e uns ténis.

Vários:

– O kit de primeiros socorros (deste POST )

– Protetor solar (deve-se usar mesmo nas cidades)

– Necessaire: (o básico: escova e pasta de dentes, champô, sabonete, etc)

– 1 rolo de papel higiénico /1 embalagem de toalhetes húmidos

– 1 bolsa estanque impermeável (para pôr o telemóvel e os documentos quando andarmos a saltar de ilha em ilha, ou a passear de kayak no meio dos rochedos de Ha Long Bay. 😍

– 1 cadeado

– 1 toalha de microfibra (ocupa pouco espaço e seca rápido)

– Venda de olhos e tampões para os ouvidos (a Ásia é um continente bastante ruidoso!! Nunca me vou esquecer dos galos de Bali, que cantavam a qualquer hora do dia e da noite) 🙄


– Bolsa interna para levar o dinheiro e passaporte
Dica para quem viaja sozinho (ou acompanhado): Quando fiz o meu primeiro interrail em 1999, a minha mãe coseu na cintura de cada peça, uma bolsa pequenina com zip. Além da tradicional bolsa que se leva por baixo da roupa, tinha sempre uma bolsinha extra que mais parecia uma segunda pele. Os ladrões não estão à espera que sejamos tão precavidos… ou isso espero!
 
– Uma pequena lanterna (porque os apagões na Asia são o pão nosso de cada dia)

– Guia da Lonely Planet + Diário de Viagem e estojo completo

– Um livro para as viagens longas e as tardes na ilha

– Telemóvel, carregador e bateria externa

– Auriculares e alguma série descarregada da netflix , para aguentar um voo até ao outro lado do mundo

– Camara Fotográfica (quase tão importante como o passaporte). Como somos dois a viajar, cada um leva uma (reflex e compacta), e a Gopro levamos para tentar registar o fundo daquele imenso mar tropical.

Nota importante: Podemos ter tudo o que está na mochila connosco, mas se nos falta o passaporte, não vamos a lado nenhum e se já estamos no destino, pode ser uma enorme dor de cabeça. Por isso, recomendo digitalizar e fotocopiar todos os documentos; e espalhar em diferentes partes da mochila.

O Palavras na Barriga vai de férias e volta em Setembro, até lá, podem acompanhar as minhas andanças asiáticas no INSTAGRAM!!

Bom Verão & Boas Viagens!

Dicas pré-Ásia 

Há tantas coisas a ter em conta quando se prepara uma viagem, que poderia escrever vários posts sobre o tema. 
Tão importantes como a organização burocrática e logistica, são os temas socioculturais, que nos podem dar muitas dores de cabeça, caso não os tenhamos em atenção.

Hoje escrevo sobre dicas para viajar na Ásia, aquelas que normalmente nos dão os amigos que já lá estiveram e que provavelmente servem para quase todos os países. Muitas são dicas de bom senso, mas outras são também formas de evitar erros comuns que muitas vezes cometemos sem pensar. 

O sudeste asiático é um destino mochileiro, não só porque é exótico, com praias paradisíacas, boa comida e culturalmente diferente; mas principalmente, porque é barato. É possível viajar por esta zona do mundo durante 6 meses, com o que gastaríamos na Europa em apenas um mês.

Ser mochileiro e viajar com um orçamento limitado não quer dizer que sejamos menos educados ou conscienciosos. O facto de ser um destino de praia, não significa que na mochila se ponha três bikinis, um pareo, chinelos e dois vestidos. A maior parte dos países asiáticos, são conservadores, com  povos modestos e recatados que não têm por hábito mostrar o corpo nem sequer na praia. Em quase todos os templos tem que se entrar descalço, com os ombros e pernas tapados. O ditado “em Roma sê romano” deve-se aplicar e respeitar os costumes e tradições, para garantir uma receção hospitaleira e uma convivência amigável. 

Lamentavelmente, uma situação bastante comum é a de nos tentarem enganar; sejam taxistas, condutores de tuk-tuk ou donos de  lojas; para eles somos dinheiro com pernas e devemos manter-nos alerta, ainda que não seja necessário entrar em paranóia. Lembro-me que antes da viagem à India, todos nos alertaram para nunca dizermos que era a nossa primeira vez no país. E a verdade é que durante toda a viagem nos perguntaram várias vezes se era a primeira vez que ali estavamos. Dissemos sempre que já tínhamos ido outras vezes, e isso acabou por dissuadir os espertalhões. 

Em Bangkok um condutor de tuk-tuk insistiu que o Palácio Real só abria à tarde, e que primeiro nos levaria a passear pela cidade. Mandámos parar o tuk-tuk e apanhamos outro que nos levou ao, obviamente aberto, Palácio Real. Tenho muitas histórias deste género, e várias em que fomos enganados, mas a experiencia é a mãe de todos os ensinamentos. 

Por mais que nos digam que a realidade é totalmente diferente, há coisas que só vendo e vivendo; a pobreza é uma dessas coisas. O que senti ao ver as ruas de algumas cidades indianas, nenhuma imagem de nenhum documentário me tinha feito sentir.

 É sempre uma boa ideia contextualizar-se e ter informação antes de viajar para um destes países. Para, por exemplo, ter uma pequena noção do que passaram a maioria dos cambojanos a apenas algumas décadas. 

O sentimento de compaixão e solidariedade é fundamental para nos aproximarmos das pessoas da terra e compreender como sobreviveram e conseguiram continuar com a sua vida. 

A exploração turística é inevitável e hoje em dia muitos países vivem disso, mas se pudermos eleger atividades e atrações que não se aproveitem de nenhuma pessoa ou animal, pois que assim seja. 

A que custo tiramos fotografias abraçados a tigres? Ou em que estado estão os elefantes que nos carregam nos passeios pelos templos?

São animais selvagens, não são animais para brincar. São drogados e maltratados para obedecer ao Homem e cada turista que visita estas atrações, alimenta esta situação abusiva e aterradora. 

Assim como o consumo dos famosos licores com o reptil dentro da garrafa, que  sustentam o mercado negro de animais.

Reconheço que muitas vezes é complicado fugir de algumas situações; por exemplo em Siem Reap fui ao supermercado com um menino de rua para comprar leite. Ele escolheu a lata de leite mais cara que havia e provavelmente depois voltou a vendê-la ao supermercado, ficando com o dinheiro. Mas naquele momento, foi para mim impossível não “ajudar” aquela criança.

Há muitas formas corretas de ajudar, há diversos programas de voluntariado por todo o mundo, há ONGs que fazem trabalhos admiráveis com pessoas e com animais; mesmo de longe é possível “adotar” uma criança, enviar material escolar ou mantimentos, e assim minimizar um pouco a vida cruel que têm.

Como disse no início do post, o sudeste asiático é o paraíso dos mochileiros; transportes, hotéis e comida baratos. Tudo encaminhado para roteiros turísticos, que mesmo quando vamos por nossa própria conta, faz com que sigamos uma linha já delineada. Muitos viajantes acabam por não sair da rota do costume e deixam de ver outros paraísos. Não digo que não se vá aos destinos mais óbvios, eu quero ir a quase todos; mas se a felicidade está fora da nossa zona de conforto, imaginem o que se pode encontrar, quando já estamos fora dela…  Não acredito que se possa conhecer Bangkok se não sairmos da Koh San Road; e Bali não é seguramente a única ilha interessante da Indonésia…

A oferta de voos low cost é tanta, que mesmo que tenhamos uma limitação de tempo para viajar, não temos porque ficar apenas num sítio e podemos sempre dar um pulo ali ao país vizinho. É só pesquisar!

Viajar pela Asia fez de mim uma pessoa mais tranquila e menos stressada, isto de querer controlar tudo, naquele continente é completamente impossível. Os transportes não respeitam os horários, o trânsito é caótico, a eletricidade falha a torto e a direito, as condições climatéricas fazem com que se altere rotas e destinos. 

Em alguns países é imprescindível ter jogo de cintura e deixar-nos ir com a maré. A minha primeira lição na Asia foi em Delhi, quando não conseguimos comprar os bilhetes de comboio para Agra, o que fez com que não visitássemos o Taj-Mahal. Foi na verdade a minha pior experiencia numa viagem, com suor e lagrimas à mistura, e uma assombrosa impotência por não me conseguir entender com aquele sistema, naquela assustadora estação de comboios. Depois desse dia, tudo ficou mais fácil. 

Um dos motivos que nos levou em 2014 a Bali foi o facto de termos um querido amigo a viver na ilha. Amigo esse que nos pediu para levar 1Lt de álcool cada um (quantidade permitida para entrar no país). Levámos uma garrafa de vodka e uma de rum e escusado será dizer que acabou logo na grande festa à chegada. Uns dias depois fomos ao supermercado comprar cervejas e percebemos que cada garrafa destas, em Bali, pode custar cerca de 50€. Se na Tailândia se come por 1,5€, não se bebe cerveja por menos de 3€; o álcool é sem dúvida uma das partes mais caras de uma viagem à Asia. 

Excluindo o álcool, tudo o resto é muito barato e começar a comprar pode ser uma perdição. Entre artesanato, imitações, bijuteria e outros acessórios, é possível voltar à Europa com as mochilas completamente a abarrotar. Diz-se que se deve sempre regatear, porque o valor inicial é sempre superior ao real; mas atenção: sem exageros, por favor! Se já é tudo muito barato, porque vamos estar a discutir por 20 cêntimos?! Como em tudo na vida há que ter bom senso e noção da realidade do sítio que estamos a visitar. 

Para finalizar, porque este post já vai longo, ao fazer a mochila devemos ter em conta que naquela zona do mundo faz quase sempre muito calor. Com exceção das zonas montanhosas, não vale a pena levar grandes agasalhos; nem roupas bonitinhas, nem saltos altos, nem ir carregados com demasiadas mudas de roupa, que depois nem chegamos a usar. 
O que sim faz falta é o papel higiénico, já que eles gostam da mangueirinha e ter sempre à mão um gel antibacteriano, para qualquer eventualidade. 

Nunca me vou esquecer que num “restaurante” na base do Vulcão Monte Butur, na Indonésia, onde eramos os únicos ocidentais; perguntámos pela casa de banho e disseram-nos que não havia, que podíamos fazer as necessidades no meio do mato. Respondemos que queríamos apenas lavar as mãos antes de comer; e então passaram um pequeno alguidar com água; mas antes de chegar até mim, passou por toda a gente que estava sentada ao balcão à espera da comida. Todos lavaram as mãos na mesma água… a única coisa que posso dizer neste momento é: Viva ao gel antibacteriano que anda sempre na minha mochila quando viajo!! 

Wanderlust em 2017! 

Como já é de conhecimento geral, uma das coisas que mais me dá prazer na vida é ver o mundo. Viajar e descobrir locais pela primeira vez, conhecer novos povos, hábitos, costumes e realidades. 

Se gosto, se está perto e é acessível, posso repetir vezes sem conta; caso contrário fica na memória e tomo nota que um dia quero voltar aquele sítio onde já fui tão feliz. 

Tenho inúmeros exemplos: mas posso resumir que na Europa a minha cidade de referência é Londres, passei lá várias temporadas, umas mais longas e outras mais curtas, mas sempre que posso volto e mato saudades. 

Fora da Europa há locais onde voltarei um dia, não sei quando, mas um dia seguramente voltarei a Varanasí, aos Templos de AngKor e a São Paulo; três dos sítios que mais me marcaram. Se posso voltarei a muitos mais; mas a limitação de tempo e dinheiro e a flutuação do nível das prioridades na vida, provavelmente farão com que não volte a muitos dos locais onde já estive. 

Há uns tempos, numa das muitas e deliciosas conversas que tenho com o meu pai sobre o mundo e a vida, ele disse-me algo em que eu nunca tinha pensado. Falávamos de viagens e das enormes ganas que eu tenho de comer o mundo; e ele, que teve a sorte de poder viajar por vários países quando era mais novo, disse-me que agora olha para trás e percebe que nem sempre se trata de prioridades, de ter que eleger ou de fazer escolhas; às vezes simplesmente não depende só de nós. 

Há locais onde ele não foi e que neste momento já nem existem, há países que foram destruídos pela guerra, por catástrofes naturais; e o facto de não ter ido a tempo não dependeu dele, mas sim das circunstâncias. 
Os meus pais cresceram em Africa; e a Africa onde eles cresceram, eu nunca vou conhecer; a quantidade de animais selvagens que eles viram no seu habitat, eu nunca vou ver. A história, o tempo e a mão do Homem, encarregam-se de acabar com cenários que não têm como voltar a existir. 

Neste momento penso em todo o médio oriente, em todos os países árabes que gostava de visitar e onde agora mesmo me sentirei insegura se lá for. Não sei quando verei as pirâmides do Egipto, quando visitarei Petra, ou até mesmo Istambul…
Às vezes tenho pena por não ter o tempo ou o dinheiro para poder viajar constantemente, mas mesmo que o tivesse, há sempre uma escolha a fazer e há sempre circunstâncias alheias à nossa vontade que nos impedem de fazer o que gostaríamos. 

Este ano estávamos bastante indecisos quanto ao destino da nossa viagem; eu tinha claro que gostava de voltar à Asia, mas sei que temos pendente as Américas há muito tempo, e lamentavelmente parece que assim continuará. 

Para mim, uma das coisas mais divertidas e interessantes de viajar é poder comunicar com as pessoas, é tentar entender como pensam e como funcionam as sociedades. Muitas vezes é difícil porque o facto de não falarmos a mesma língua limita o nível de entendimento, claro que a comunicação é sempre possível, nem que seja por mímica; mas quando se fala a mesma língua abre-se um mundo de oportunidades e experiências. 

Há quase 10 anos que falo castelhano e tenho em mim uma grande pena por ainda não ter ido a nenhum país hispânico, onde me possa misturar com a gente e partilhar a sua cultura. Mas sei que essa viagem chegará… já faltou mais! 

Este ano voltaremos à Asia porque a temos no coração, porque é pacífico e fácil de viajar, porque é bonito e barato e porque apesar de ser tão diferente da Europa, sentimo-nos em casa, cómodos e bem-vindos. 
Estávamos entre o Japão e o Vietnam e decidimo-nos pelo último depois de fazer contas à vida; o país do sol nascente ficará para outra altura. 

Num próximo post, porque este já vai longo, escrevo sobre o porquê de querer visitar o Vietnam e como estamos a organizar a nossa viagem de 2017. 

AngKor – no Reino do Camboja 

Quase 1 mês sem vir ao blog… muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Em breve escreverei sobre todas as mudanças e novidades na minha vida. Hoje apetece-me escrever sobre um dos sítios mais impactantes onde estive. Um sítio onde penso que voltarei um dia, daqui a muitos anos. 

Os templos de AngKor, no Camboja. 

Para escrever sobre esta viagem tenho que retroceder a inícios dos anos 2000 e recordar um momento, que está tao vivo na minha memória como o dia de hoje. Estava sentada no sofá dos meus pais e vi na televisão uma entrevista à atriz portuguesa Maria Vieira, que apresentava um livro sobre uma viagem ao Camboja. A forma como ela descreveu o país e as pessoas, as imagens que mostrou; e o brilho sorridente, tao característico do seu olhar; despertaram em mim uma gigantesca curiosidade. 

Depois disso passaram muitos anos, passaram-se muitas viagens, mas o Camboja não saiu da minha cabeça. 

Em 2013 uma amiga fez 2 meses de voluntariado em Siem Reap e mais uma vez apaixonei-me pelas fotografias que mostrou. Deixava-me deslumbrar pelas histórias de outros amigos que já tinham ido e sonhava acordada com o momento em que chegasse a minha vez. 
Em 2014 casei e fizemos uma grande viagem. 

Na verdade foi uma pescadinha de rabo na boca: casámos porque queríamos viajar e só viajámos porque casámos. Enfim… cada um casa pelo motivo que lhe apetecer! Depois de 14 anos juntos, casar não mudou quase nada. 

Pusemos a mochila às costas e fomos 5 semanas para a Asia; o Camboja era o verdadeiro objetivo, tinha uma vontade imensa de ver os templos de AngKor, e superou todas as minhas espectativas. Viajámos pela Tailândia, Indonésia e Camboja; mas hoje escrevo só sobre os Templos. 

Quando cheguei sentia-me inquieta e ansiosa, queria ver AngKor Wat com os meus próprios olhos e não me senti em nada defraudada. Ali senti a verdadeira força da Natureza, a incapacidade do homem de controlar algo incontrolável. E ainda bem que assim foi, pois só assim foi possível preservar os templos de tantos anos de guerra. 

 AngKor foi sede do Império Khmer entre o século IX e o XIII; o nome deriva do sânscrito e quer dizer ‘cidade’. Está localizada no meio da floresta/selva, a norte do Lago Grande (Tonle Sap) e a sul dos montes Kulen; pertinho de Siem Reap. É considerado Património Mundial pela Unesco… e por mim, é considerado um dos sítios mais impressionantes que já visitei. 

No mínimo inesquecível! 

Comprámos o bilhete de 3 dias, para poder visitar durante uma semana. 

Não é uma visita fácil, vários templos enormes, salpicados por uma área muitíssimo grande, numa época de calor abrasador. Começávamos às 8am e voltávamos para o hotel ao final da tarde, depois do pôr-do-sol; completamente exaustos e com dores no corpo; mas com a alma cheia e o coração leve. Uma sensação parecida ao que vivi em Varanasi, na India, mas essa história ficará para outro dia… 

A visita foi feita de tuc-tuc, conduzido por um Cambojano de 37 anos, casado e com 2 filhos, chamado John (versão ocidental do seu nome). O John parecia ter mais 15 anos em cima, maltratado pela terra e pelo sol; mas com um sorriso e uma generosidade que nos conquistaram desde o primeiro dia; um verdadeiro doce. Ele não falava inglês e nós de cambojano só: olá, adeus e obrigado; mas entendemo-nos perfeitamente. 

Não se pode visitar Angkor a pé, ou se vai de bicicleta ou de tuc-tuc com guia. Nada de motos sem guia; e bicicleta com aquele insuportável calor, era impensável para mim; por isso o John levava-nos à entrada de cada templo e esperava por nós até sairmos, para nos levar ao templo seguinte. 

Nós entravamos, subíamos, descíamos, saltávamos, corríamos de cima a baixo; sacávamos fotos, descansávamos à sombra das imensas árvores; conversávamos contagiados pela energia do lugar, ou ficávamos em silêncio absorvidos pela chocante paisagem. Às vezes falávamos com outros visitantes, falávamos com os cambojanos que encontrávamos no caminho; meditávamos, abraçávamo-nos e deixávamo-nos encantar pela magia que nos rodeava.  Podia passar horas no meio daquelas pedras todas a olhar para as árvores sem fim. Ou ficar no meio dos troncos, que os meus braços não chegavam para abraçar, a olhar fascinada para as imagens esculpidas no amontoado de pedras à nossa volta. 

Podia tentar contar muitas historias que aconteceram nos 3 dias que visitámos AngKor, mas há emoções que não são fáceis de traduzir para palavras. Por isso aconselho toda a gente a visitar, pelo menos uma vez na vida, os Templos de AngKor! 

     
    
    
    
    
    
   

India [shanti shanti]

Este é o primeiro de vários posts que quero escrever sobre a India, sobre uma grande viagem e sobre o amor que cresceu dentro de mim, por este país tao duro e ao mesmo tempo tao doce. 
Este será um post para contextualizar a India na minha vida, e nos seguintes tentarei pôr em palavras as emoções que senti em cada local, ao viver cada experiencia e com cada pessoa com quem me cruzei. 

Fui à India pela primeira vez em 2012, digo pela 1ª vez, porque sei que foi só a primeira; que voltarei novamente e provavelmente mais do que uma vez. 

Quando se tem um tempo limitado para viajar por ano, há que fazer escolhas e por agora não penso voltar à India, porque “há mais peixe no mar” e quero conhecer outros países; mas esta será sempre a minha “grande viagem” – o meu “grande amor”. 

 Dizem que ou se ama ou se odeia… eu amei! Não quero pôr os sentimentos a um nível tao radical, mas compreendo o porquê das duas situações. 

É um destino que muitas vezes não é fácil de digerir, muito parecido à sua comida; condimentada e com um tempero forte e explosivo. Várias pessoas disseram-me que as viagens à India são viagens espirituais; para mim foi mais uma viagem cultural, também gastronómica; mas sem dúvida foi a viagem mais emocional que fiz até hoje. 

Esta vontade de conhecer a India vem desde que me lembro de ser gente; os meus pais são muito amigos de uma família de origem goesa, com quem tive a sorte de crescer. Eles são como meus tios e os seus filhos como meus primos! Passávamos os aniversários juntos, os fins-de-semana e visitávamo-nos no natal; nos momentos importantes contamos uns com os outros e tenho-lhes um carinho muito especial. Assim como cresci a ouvir histórias da Angola colonial (tema com pano para mangas que ficará para outro post), também ouvi histórias de Moçambique e consequentemente de Goa. 

Há alguns sítios no mundo com os quais sinto uma ligação especial, mesmo antes de os visitar. Talvez por ter ouvido muitas histórias ou por ter devorado livros sobre os mesmos. São aquelas situações que não se explicam…

Um desses sítios foi Goa; antes de chegar eu já sabia que ia gostar e recomendo como ponto de chegada numa primeira viagem à India, para que o choque não seja tao intenso. 

Já tinha viajado por quase toda a Europa antes de ir à India, e em 2009 vivi uma aventura maravilhosa no Brasil, que me deu bastante estaleca para estas viagens longas de mochila às costas, com horas eternas em autocarros e comboios, sem saber onde se vai dormir quando se chegar ao destino, nos confins de um país gigante. 

Mas nunca podes estar preparado para um país como a India, a diferença sociocultural é abismalmente grande e o confronto pode ser verdadeiramente doloroso. 

A compra do bilhete de avião foi numa aleatória noite de Janeiro, sentados no sofá em busca de voos baratos para qualquer destino ao qual nunca tivéssemos ido. De um dia para o outro, sem pensar muito, porque custava apenas 320€, comprámos dois bilhetes: Barcelona-Paris-Bangalore-Pangim. 

Depois disso comecei um profundo processo de leitura e investigação, na qual o meu pai; apesar de estar em Lisboa, participou ativamente. Enviou-me vários livros, que recomendo ler, a quem queira aprender um pouco mais sobre a India; como por exemplo: ‘Uma ideia da Índia’ de Alberto Moravia; ou ‘Vislumbres de la India’ de Octavio Paz (Nobel da Literatura 1990).

Pedi conselhos a vários amigos que já tinham ido várias vezes e sinceramente, esta é a melhor forma de aprender; às dicas e recomendações de pessoas que já estiveram num local onde também iremos, não há Lonely Planet que lhe chegue aos pés. 

A adrenalina foi incontrolável e a partir desse momento e até Abril, quando iniciámos a aventura, já não pude pensar em nada mais….